ALÉM DO POEMA
Poesia
Vera Margutti

Em que parte do dia cabe a poesia? Cabe em qualquer hora, sobretudo se houver Veras por aí, a recolher espantos. Ela recolhe sem pressa, eu vi, coisas muito grandes, quase invisíveis de tão miúdas, e depois as despeja no papel. Ficam ali, essas coisas, a buscar nossas mãos. “Pela manhã, quando os pés do mundo tocam o chão” podiam bem aceitar algum silêncio antes de correr. “Também já tive pressa”, mas agora eu “coloco no bolso esquerdo um punhado de bons desejos e amanheço”. Agora eu sei, porque “plantei um pé de amor”, que “fazer o bem é um brinquedo que não quebra nunca”. Agora eu sei que “poesia dá em árvore” e “a poesia me salva”. Sei ainda que “sou a causa de tudo que me acontece”. E, se é assim, “escrevo quadrado porque a vida é redonda”. Daí que “plantei orquídea e brotaram ovinhos”. Eu sei também que “o tempo pinta os cabelos de prata”. Bem por isso “quero sempre ser levada pela mão de uma criança. Elas conhecem o caminho do paraíso.”Há, nestes dias, um lugar para a poesia? Se houver, há um lugar para Vera Margutti. No vasto espaço em que habitam, Vera e Poesia dançam juntas e bem. E muito. No louco tempo em que existem, permanecem música ao ouvido disposto ao voo.